Romário nunca curtiu muito escovar os dentes. Mesmo sendo uma tarefa de, no máximo, cinco minutos, ele a detestava.
Lourdes, sua mãe, maníaca por limpeza, sempre o incentivou a higienizar bem a boca após as refeições.
Romário, como um bom filho obediente, sempre ouviu as recomendações de sua mãe e costumava escovar seus dentes com muita frequência.
Chegou um tempo que Romário escovava os dentes a cada duas horas, sem ter tido sequer comido.
Ficou paranoico.
Lourdes achava lindo, mesmo a frequência sendo errada e prejudicial.
É.
Romário entrou em uma escola de ensino integral. Agora ele passaria a estudar durante o dia todo.
Não tinha mais Lourdes para ordenar-lhe nada.
Escovava os dentes pela manhã e só a noite escovava outra vez. E essa era bastante rápida porque, na maioria das vezes, Romário estava cansado demais.
Lourdes agora não cobrava mais tanto do filho e ele se aproveitou disso para exercer sua preguiça de escovar os dentes.
Então Romário se acostumou a escovar os dentes uma, ou duas (ou uma e meia) vezes por dia.
Por vezes, ele se perguntava:
"Por que preciso escovar os dentes agora se vou comer em algumas horas?"
Procrastinava tanto a escovação que os intervalos, entre uma escovação e outra, começaram a levar mais de um dia completo.
As consequências apareceram logo.
O reino Monera tratou logo de exercer sua função.
Alojou-se, em um dos dentes pré-molares, uma colônia de bactérias famintas.
Foram degradando pouco a pouco, de modo que chegaram à polpa daquele dente que já costumou ser muito bem higienizado.
Romário, certo dia, acordou estranho.
Levantou, o café estava na mesa.
Sentou-se e deu um gole.
Sentiu como se lhe entrasse ácido sulfúrico por um dos dentes.
Continuou a tomar o café sentindo dor com muita discrição.
Quando acabou, foi ao espelho e abriu a boca.
Estava lá, uma bela cárie no que já tinha sido um belo dente.
"Nossa, não acredito nisso. Minha mãe vai me matar."
A cárie respondeu que não havia problema nenhum em ter uma cárie.
"Eu me chamo Zulu. Seremos bons amigos, você vai ver."
Romário se desesperou um pouco enquanto colocava creme dental sob a escova.
"Não é nada com você, Zulu. É que minha mãe é louca."
Nem a deixou responder e a afogou com Colgate.
Depois de uns três minutos ininterruptos escovando Zulu, Romário enxaguou a boca, e a abriu novamente diante do espelho.
"Você ainda não foi embora?" Indagou assustado.
"Eu não irei embora tão facilmente. Você terá que se acostumar comigo, a não ser que vá ao dentista."
Romário, que nunca havia precisado ir ao dentista para reparar nada agora se via sem saber o que fazer.
Ele não podia contar nada para sua mãe, porque certamente ela o mataria.
Algumas horas se passaram e Romário voltou a fazer contato com Zulu.
Ela elogiou a coxinha que ele comeu no intervalo.
Romário, que não tinha tantos amigos assim (ou nenhum), era bom para ele ter alguém para comentar sobre a coxinha da escola.
Romário gostou disso.