Eu acordei esperando nada para o dia de hoje.
É dia das crianças, pensei o quão a cidade estaria movimentada e empestada de crianças gritando, brincando e gritando.
Saí para resolver umas coisas, no alto da maturidade que acho que tenho.
Ao voltar e ao tentar me sentar em um assento do ônibus, um menino guardava lugar para alguém.
Confesso que fui um pouco arrogante ao pedir para sentar.
"Ah, eu ia sentar na janela."
Crianças têm muito disso, compadeci-me na hora e dei um risinho (enquanto me arrastava para o assento ao lado e ele levantava e se sentava à janela).
Olhei a hora no meu smartphone e vi que a bateria estava quase acabando.
"Tem Pou?"
Nunca espero por diálogos vindos de alguém que não conheço e, principalmente, quando é uma criança.
Na verdade, principalmente quando estou em um ônibus.
"Oi? Não ouvi."
"Tem Pou? O joguinho."
Eu tinha desinstalado o aplicativo há algumas semanas porque me faltava espaço para umas bandas novas que eu descobri. Que pena.
"Ah, tenho não..."
Para não passar de mentiroso, mostrei meus aplicativos para o garoto, que aparentemente acreditou que eu realmente não tinha o aplicativo.
"Eu vou instalar o Pou no meu celular, é bem 'ching-ling' mas é Android."
Murmurei um "hmm" enquanto ele tirava o aparelho do bolso.
"Está descarregado, mas vou ligar para te mostrar."
Aproveitei o momento para reparar mais na pessoa que estava falando comigo. Era um menino branco, loiro, olhos castanhos claros. Ele devia estar voltando de algum passeio, desses que a tia leva todos os vinte sobrinhos para o zoológico, ou praia.
O celular dele não ligou e eu voltei a usar o meu, procurando algo para fazer. Desbloqueei a tela com o meu código e ele falou novamente.
"Eu aprendi a sua senha."
Riu também.
É, não tinha realmente nada melhor para fazer, ou olhar, ou pensar, ou qualquer coisa. Dei-me por vencido e dei meu celular para ele e lhe lancei um desafio.
"Minha senha nem é tão fácil assim, quero ver você desbloquear então."
Ele pegou o celular, tentou umas três ou quatro vezes e falou:
"Ah, faz aqui de novo, é que eu nem vi direito."
Não lembro bem o que se sucedeu, mostrei-lhe outra vez, ele fez mais algumas tentativas e o aparelho descarregou. Um pouco emburrado, ele me devolveu o celular e o silêncio entre nós voltou.
Por um instante, ele teve a impressão que tinha pego o ônibus errado, uma vez que há algumas semanas a rota dessa linha mudou (por um motivo que nem eu sei).
Ele me perguntou se era o ônibus certo e eu o tranquilizei dizendo que sim.
O ônibus parou no semáforo e ele fez um hangloose para um menino do lado de fora do ônibus que estava na garupa de uma moto.
Ele olhou para mim e riu. Perguntei-lhe se ele o conhecia. Disse-me que não.
Rimos.
Não sei como ele sentiu espaço para isso, pois sou um porre, mas de repente ele começou a falar que um amigo da escola é gordo e começou a cantar uma paródia, de um desses hits, que ele e seus amigos fizeram para caçoar dele.
Depois de um tempo falou alguma outra coisa, que não lembro, desistiu e começou uma nova:
"Minha voz está bem estranha ultimamente. Às vezes, quando estou calado e falo alguma coisa do nada ela sai bem estranha."
Falando assim nem parece tão engraçado.
Mas foi. Tanto que rimos um pouco mais alto.
Fui simpático e, ainda rindo, falei:
"Ah, isso é normal! Quantos anos você tem?"
"Nove, vou fazer dez."
Murmurei um "Naturalmente" mas ele nem ouviu. Perguntei também se ele estudava e em que ano estava. Ele me respondeu e me replicou com:
"Com que idade você aprendeu a ler?"
Pensei um pouco e respondi que tinha sido aos cinco anos.
Ele balbuciou umas duas ou três coisas, disse que estava com a tia e o marido dela (que se chamava Gilmar ou algo assim). Fez-me mais algumas perguntas, perguntou-me onde eu morava, etc.
E então um menino o chamou, dizendo-lhe que eles tinham que descer na próxima parada.
Demos um "tchau" bem rápido, desejei-lhe um feliz dia das crianças. Ele riu e agradeceu. Percebi que nem fiquei sabendo do nome dele. Na verdade, nem me importa.
Fiquei abobado por uns minutos pensando sobre a minha ignorância acerca de tudo. Pensei também sobre a minha incapacidade de dizer a coisa certa, de perguntar a coisa certa.
Aquele menino nem sabe, mas ele é muito mais esperto que eu, no alto da maturidade que acho que tenho. Um dia ele crescerá e não será tão esperto assim, como é hoje.
Mas hoje, no seu dia, ele pôde me mostrar ser mais certo de si do que eu, cheio de conceitos e valores que sempre achei inabaláveis.
Crianças do subúrbio e suas peculiaridades.
Feliz dia das crianças.