T-spot no.1

Teve um dia que estava chovendo e você se sentiu triste. As suas roupas não amenizaram o frio e você se sentiu desprotegido. Você estava em pé no meio de um vagão de um metrô. Então você teve uma súbita sensação de que estava sendo vigiado. Mas ninguém estava te olhando. As pessoas passavam por você, esbarravam em você. O dia tinha sido horrível. Você não encontrou ninguém que conhecia. Ninguém ouviu a sua voz naquele dia. E naquele instante você se viu, no meio do vagão, voltando para casa sozinho. Uma mulher se levanta para descer e você senta no lugar que ela estava ocupando. Estava meio quente mas você nem ligava mais para isso. Ao sentar-se, você abriu a mochila. Retirou sua garrafa de água. Deu três goles e a guardou. Tirou de dentro um livro. Era um romance realista brasileiro. Você começou a folhear e nenhuma palavra fazia sentido. Você não conseguia passar do parágrafo que estava. Depois de alguns minutos, você fechou o livro com impaciência. As árvores correm lá fora. A chuva não cessava. Você sentiu um pouco de sono e abaixou a cabeça. Pensou em algumas bobagens e cochilou. As estações se passavam e você estava lá, perdido em si mesmo. Você não sonhou, ou pelo menos não lembra. Ao chegar na última estação, o guarda te acordou. Você se desculpou e desceu rapidamente. E então você se viu no elevador. Sozinho. Tinha um espelho lá. Nesse momento, nesse curtíssimo momento que o elevador desce apenas um andar, você se vê. Aquele não era um espelho comum. O espelho fazia com que você se visse. A porta se abriu, era a hora de sair do elevador e embarcar em um ônibus para casa. E já tinha um lá. E bem vazio. Você foi, subiu no ônibus e se sentou no fundo.
O ônibus saiu e só tinha você lá. E outra vez, sem espelho mesmo, você se viu. Você não gostava nada daquilo. Era como ver algo que o agoniasse muito. Ver-se era como mastigar gelo. Procurou se ocupar de algo mas não conseguia. Passou todo o caminho se vendo.
Chegou em casa, comeu umas bolachas e dormiu.
E ao dormir, você sonhou com sua própria imagem. Mas não com olhos, boca, cabelos bem definidos. Você viu um grande borrão cinza. Você soube, ao ver, que o borrão era você. Ninguém o disse. Você soube. O borrão cinza só crescia e você sentia como se sua cabeça estivesse sendo engolida. De repente, você acordou.
E foi naquele momento exato que você teve a completa convicção de que você é um borrão cinza. Em todos sentidos imagináveis.
Esse momento, o microfragmento de segundo que culmina nessa percepção é um T-spot.