Dentro

Essa semana, no caminho de volta para casa, eu me vi sentado em um assento de um ônibus que ia para o subúrbio da cidade.
Confesso que não gostei muito de que vi.
Estava cansado (entre todos os possíveis sentidos.
Estava com olheiras monstruosas.
Fazia calor e eu estava suando como garrafa de água gelada sobre a mesa.
Recostei-me no assento, não consiguia dormir.
Meus joelhos esbarravam no assento da frente e por isso não pude me acomodar.
Deitei sobre minhas coxas.
Pude me ver melhor naquele momento.
Um rapaz deitado sobre suas coxas.
No último assento.
Ele estava aparentemente magoado mas, na verdade, eu não estava.
Ele parecia também esperar por algo.
Eu não estava.
Eu não sabia como ele estava.
Eu não sabia como eu estava.
Eram só minhas suposições do que estava acontecendo com aquele rapaz.
Cheguei mais perto.
Vi nele uma cicatriz na testa.
Foi de quando cai de bicicleta.
Ele parecia dormir, mas eu não estava.
A senhora que estava na janela pediu licença para descer.
Ele deu.
Depois disso nenhum movimento brusco a mais.
Quando eu cheguei mais perto dele a ponto de entrar nele, eu não vi mais nada.
Tudo estava escuro e ele apagou.
Eu dormi naquele momento.
Acordei no terminal, o cobrador pediu que eu descesse do ônibus.