Minha avó por parte de mãe me chamou para
uma conversa.
Pediu que eu
parasse tudo que eu estava fazendo, pediu que eu me sentasse no seu
elegantíssimo sofa beige.
Pediu também que
eu apenas a escutasse.
Ela falou. Eu escutei.
Falou de uma dor
que a deixava "pirada". A dor a deixava "pirada".
Falou mal do
marido de uma das suas outras filhas. Chamou-o de "canalha" umas
cinco vezes.
Não pude deixar de
notar (e de me aborrecer) o ruído que ela fazia ao friccionar as unhas de uma
mão com a outra. Aquilo me distraia assim como o sofa beige da sala.
Eu gosto muito de beige.
Pode parecer
bobagem mas esta cor me remete a umas lembranças que, na verdade, eu nem sequer
me lembro. Confuso? Talvez eu não tenha usado a palavra mais adequada – acho
que é necessário ter algum resquício de memória para formar uma “lembrança”,
propriamente dita – mas é esta que me vem agora.
De repente, tudo
começa a girar e não passa mais de dois segundos (É isso o que chamam de déjà-vu?). Uma vertigem incontrolável ao lembrar de coisas jamais vistas ou
sentidas.
Vertigem a tons pastel.
Este sou eu:
Carlos Romualdo, moro em Jacamira e eu acho que tenho dezessete anos.
O "acho" é porque minha mãe me encontrou na Rua das Esmeraldas com
alguns meses de vida.
Invento verbos. O
último verbo que eu inventei é o "tangrilinar" e ele é intransitivo.
Significa gerar ruídos ao friccionar as unhas de uma mão com a outra. Peguei um
pedaço de “tangente” para dar o "tan", atribui o oposto e o adjacente
às duas mãos, e o "grili" vem do canto do grilo. No final, adicionei
a letra "n" para deixar o verbo mais estético porque pretendo usá-lo
muito a partir de hoje.
Falo demais,
minto, palro demais. Ninguém entende o que eu falo e eu nem me importo, falar
para mim é uma maneira de me convencer que meu pensamento é real e escutar o
que eu estou pensando já me parece uma prova bastante convincente de que eu não
estou imaginando que eu estou pensando. Ou pensando que eu estou imaginando.
Pensar que se está
pensando em algo não é simplesmente pensar nesse algo?
É?
Minha longuidão,
minha prolixidade, minha demora, minha longura (gosto dessa) deve-se ao fato de
que eu sempre estou inseguro do que eu quero exibir da minha existência, da
minha estúpida existência.
Tudo por aqui em
Jacamira é estúpido. Minha vó também é estúpida. Por falar nela, a existência
dela é muito mais estúpida que a minha. Se houver uma vida após essa, com
certeza ela seria um cisne ou um táxi ou uma palavra bem feia como
"Xenônio" ou "Xenofobia".
Quanto à minha
existência, quando se dissipar pelos quatro (ou sei lá quantos) cantos do
universo, se tornará algo bem bonito como um casulo que gera uma borboleta, a moral de uma civilização ou até
mesmo a dor que deixa alguém
"pirado".
Queria também ser
uma pedra pontiaguda ou só tinta. Um litro de tinta de parede.
Uma cor bem
vertiginosa como turquoise ou lavanda.